Trem do Pantanal

quinta-feira, 8 de março de 2012

A Traíra

Faltavam 30 minutos para o meio dia de um sábado do mês maio, e eu naquele laboratório da ótica onde trabalhava. Já estava numa agonia danada para que a loja fecha-se logo. Lá em casa as tralhas já estavam arrumadas desde a quinta-feira, e prontas para viajem. Os parceiros que não trabalhavam, ou que eram donos do próprio negócio, por não terem obrigações com empregos já tinham ido para o nosso acampamento na quarta à tarde. E eu por ser um “simples cidadão de carteira assinada” tinha que cumprir a carga horária da semana, que terminava no sábado ao meio dia. A tormenta era saber que o Fernadinho, o meu pai e o Binho “Barata” já estavam no rio desde a quarta feira, e eu ainda aqui na cidade esperando a bendita hora de ir embora chegar.

O nosso acampamento ficava em uma região do rio Paraguai a uns 30 km de minha casa, onde 25 km era por terra, e 5 km por água. Combinei com os parceiros que quando eu chegasse ao porto do sítio do seu Pedro, iria estourar uma bombinha para dar o sinal de que havia chegado para eles virem me buscar de barco. Chegado então o esperado momento de sábado ao meio dia, mal assinei o ponto e saí às pressas. A “titanzinha” 125 roncou alto em direção à minha casa. Chegando em casa peguei a mala velha e a mochila, amarrei na garupa da moto (as varas, carretilhas e caixa de pesca já tinham ido com os parceiros no carro), e segui até um mercadinho próximo para comprar as bombinhas e um jogo de pilhas alcalina para minha lanterna maglite de dois elementos. Quando pedi para o senhor da venda me mostrar as bombinhas, ele se abaixou e pegou uma caixa de papelão que continha, além de muitas bombinhas de diferentes tamanhos, uma espécie de bomba grande amarrada em uma varinha de bambu. Estranhei aquilo, e perguntei ao o senhor do que se tratava, e ele me respondeu que era uma bomba conhecida como “busca-pé”, e que ao ser acendida decolava bem alto antes de explodir, e que gerava uma explosão muito forte. Pronto! Naquele momento já me veio um pensamento perverso na cabeça, em sacanear os parceiros, pois sabendo que iriam gozar muito de mim por não poder participar da pescaria desde o começo, comprei umas bombinhas e mais quatro “demônios” daquele. Mesmo antes de sacaneá-los já estava rindo sozinho!

Antes de chegar ao porto, em uma parte da estrada bem alta em cima de uma serra, decidi estourar duas bombas para avisar a turma que eu estava chegando, assim quando chegasse no porto eles já estariam me aguardando, e eu não precisaria esperar. Sendo assim, acendi uma bombinha e joguei no meio do pasto. Aquilo deu um tiro que ecoou longe, e fez um eco bonito que dividiu o rio e a serra, e foi longe. Para confirmar acendi outra, e o barulhão foi longe de novo.
Liguei a moto e desci serra a baixo, até a entrada do sítio do seu Pedro, onde eu seria apanhado pelos parceiros. Parei na entrada para abrir a porteira, e decidi apanhar umas mangas frescas para comer ali mesmo. Foi aí que começaram os problemas! Estava ali tranqüilo debaixo da mangueira, quando escutei o ronco de um carro que vinha em alta velocidade, levantando poeira alta no estradão, sem sequer imaginar do que se tratava. Fiquei tranqüilo e calmo com minha manga na mão, e a boca toda “lambrecada”, esperando o barco chegar para eu descer até o porto e me lavar e continuar meu caminho. Foi quando o carro se aproximou, vi que era uma viatura da policia militar ambiental, pararam bem na minha frente e desceram do carro três policiais, dois com revolveres 38 na mão e um com uma espingarda calibre 12. Um quarto policial ficou dentro da viatura, me olhando com uma cara de poucos amigos. Sem saber do que se tratava, imediatamente dei um sorriso e levei a mão em direção a um deles para cumprimentá-lo, quando ele já indagou com voz alta: 

- Onde esta a arma? 

E eu sem nem imaginar o porquê, respondi: 

- Que arma? 

Vamos rapaz, não se finja de bobo, me dê a arma logo!

E eu ainda sem cair a ficha, respondi com ironia, que a única arma que tinha ali comigo era a minha “arma”, que um dia ia para o inferno ou para o céu. 

Então recebi um grito no pé do ouvido que chegou tinir! “Escutei você dar dois tiros à poucos minutos atrás, não se finja de besta, estamos averiguando a região por causa de uma denuncia de pesca ilegal”, disse um dos policiais. Nessa altura o meu coração já estava para sair pela boca de tanto medo de levar uma surra sem nem saber por que, e foi ai que entendi o porquê dos policiais estarem atrás de uma arma. Então expliquei a eles do que se tratava, e mesmo assim fizeram questão de revistar minha mala e minha mochila, e só quando acharam as bombinhas foi que relaxaram e acreditaram na minha historia. Disse a eles que as bombinhas eram para avisar os parceiros que eu estava chegando. Depois de alguns minutos, passado o mal entendido, fiquei conversando com os policiais e eles me pediram desculpas, e disseram que naquela região estava acontecendo muita pesca de rede, e eles estavam ali por motivo de denuncias por parte de alguns fazendeiros, e que confundiram minhas bombinhas com tiros. Mesmo morrendo de raiva, dei um sorriso amarelo e falei que não tinha problemas. Fiquei ali batendo um papo com os policiais, até que escutei o ronco do 15 Suzuki que vinha rio abaixo para me buscar. Despedi-me dos policiais, e com certa ironia os convidei para ir jantar no acampamento com a gente, e eles para minha alegria não aceitaram, pois estavam a serviço e disseram que outro dia aceitariam.
Quando o Binho “Barata” chegou, e eu contei o acontecido para ele, o maldito riu tanto que quase chorou de rir, mas em pensamento sabia que o troco da gozação estava guardado com o nome de “busca-pé”. Chegando ao acampamento não foi diferente, todos os “disgramados” riram de mim! Até meu pai que é serio entrou na parada.

Passado aquele inferno que fizeram comigo, procurei me inteirar de como estava a pescaria, e tive boas noticias: a turma já havia pegado muitos peixes, entre pacus, pintados e piaus. Perguntei para o Fernadinho como estava de dourado, que é o peixe que mais gosto de pescar, e ele me disse que na corredeira da fazenda são Pedro tinha bastante. Então me animei, e procurei ir logo me ajeitando para pegar uns piaus, para usar como isca no dia seguinte para pegar os amarelões (como chamamos os dourados por aqui). Até as 5 horas da tarde, eu já havia pegado uns 30 piaus Ximburé na cevinha feita pelo Fernadinho, na beira do acampamento. Foi quando meu pai chegou na sua canoa, com três belos pacus e mais uns 10 piavuçus . Então meu pai me pediu para que limpasse um pacu e fritasse para a janta, e eu sem pestanejar fui logo cuidar do peixe. Escolhi o maior e mais amarelão, que deveria estar bem gordo, e meti faca nas escamas, cuidei de limpar com muito capricho para não deixar nenhuma escama no peixe. 

Nas margens do rio Paraguai, em época de vazante, quando se limpa um peixe maior, juntam ali centenas de milhares de lambaris, para comer os detritos que sobram do peixe que esta sendo limpo. Estou falando de milhares! Quem já viu sabe bem como é. E nesse dia não foi diferente, quando abri a barriga do pacu e a gordura se espalhou na água, parecia que estava fervendo de tantos lambaris disputando aquelas migalhas de gorduras misturadas com as frutas em decomposição que estavam no estômago do pacu. Ao terminar o corte, peguei o peixe pelo rabo, coloquei na água e comecei a esfregar com a mão para retirar toda sujeira decorrente da limpeza. Foi quando percebi na água uns ataques aos lambaris, feitos por alguns peixes maiores. Imaginei que fossem piranhas pequenas, e não liguei muito. Quando terminei de limpar o pacu, pedi para o Fernadinho pega-lo, em quanto eu lavava as mão. Coloquei as mãos na água e comecei a esfregá-las, fazendo um movimento de vai-e-vem, foi quando senti um tranco na mão esquerda, e com o susto puxei fortemente minha mão da água, e no tranco que dei arranquei junto alguma coisa que foi parar no seco. Ao olhar para minha mão, vi que os dedos estavam dilacerados, com vários cortes profundos. Aquilo me deu um susto tão grande, que quando vi comecei a vomitar sem saber do que se tratava, e no momento imaginei que fosse uma cobra ou um jacaré. Foi quando o Fernandinho gritou lá de cima, dizendo que eu tinha pegado uma baita Traíra com a mão, e desceu com a traíra dando rizada, mas quando viu os meus dedos imediatamente entrou em desespero, jogou a danada de lado e saiu à procura de um pano para colocar em minha mão.

Lavei bem a mão na agua do rio mesmo, e rapidamente enrolamos um pano para estancar o sangue. Aquilo doía igual a ferroada de vespa! Não sei porque, mas parecia que aqueles dentes fininhos tinham algum tipo de veneno. Os cortes aconteceram porque, ao morder minha mão, a traíra cravou seus dentes nos meus dedos, e quando eu puxei acabei arrancando ela sem que abrisse a boca, ocasionando vários rasgos nos dedos. A noite caiu e o Binho e o meu pai chegaram, e também ficaram preocupados comigo, e todos estavam dispostos a desfazer o acampamento e me trazer para o pronto-socorro para saturar os cortes. Mas eu estava com tanta vontade de pegar os dourados que não quis voltar de jeito nenhum! Todos insistiram muito, mas eu estava disposto a não ir embora. Com o tempo a dor foi passando, ficando apenas uma dormência nos dedos. E com umas costelas de pacu frito, e um arroz feito na hora pelo meu pai, a dor passou de vez, me animando para o dia seguinte. Mais uma vez fui alvo das gozações dos parceiros, pois quando viram que eu estava bem começaram a zoar de novo, e então foram me contar como foi a pescaria nos dias em que eu não estava lá. Depois de muita prosa resolvi ir dormir, para descansar do dia conturbado que passei. Entrei na barraca, fiz minha oração e agradeci muito a Deus por as coisas terem dado certo, e peguei no sono.


Lá pelas 3 horas da madrugada, acordei do meu pesado sono com o ronco do meu pai (que não é nem um pouco baixo). Olhei para a mão, mexi os dedos e senti que estavam bem. Só havia mesmo uma dormência. Saí da barraca, peguei minha lanterna caminhei até a beira do rio. Senti aquela brisa gostosa de beira de rio na madrugada, que só quem já sentiu sabe o que do que estou falando. Quando ia retornar para a barraca, lembrei dos busca-pés que eu tinha trazido. Andei devagar por dentro do acampamento, com se fosse uma onça se aproximando da presa, abri a mochila, e peguei dois canhões de rabinho. Com muito cuidado coloquei bem debaixo da tarimba do Binho (tarimba é uma espécie de cama feita rusticamente com quatro forquilhas e varas, que servem como estrado), peguei o isqueiro e meti fogo no pavio, em seguida sai rápido de dentro do acampamento, e me agachei meio distante dali. Foi o tempo de eu agachar e o pipoco comeu! O trem deu um assovio forte e saiu pulando dentro do barraco velho de lona, e deu dois tiros que parecia o fim do mundo! Moço do céu, aquilo virou homem rompendo barraca no peito, nego voando da tarimba, o Fernadinho quase perdeu a unha do dedão quando saiu correndo e meteu o pé na cabeça de um toco que ficava ao lado do acampamento. E eu ali no meu cantinho me rachando de rir daquela correria infernal. Era a minha vingança daqueles miseráveis que tiraram sarro de mim o dia todo. O meu pai, coitado, levantou-se todo tonto, sem rumo e sem entender o que tinha acontecido.

Passado o susto foi só rizada! E ninguém mais dormiu até o dia clarear. Logo ao amanhecer, acendi o fogo do fogãozinho de duas bocas e preparei um café. Peguei uns pedaços de arroz da noite passada que estava grudado na panela, e ali fiz meu café da manhã. Peguei os piaus que estavam no viveiro de tela, e os coloquei no barco. Peguei minhas varas e carretilhas, e então escutei meu pai falar lá de dentro da barraca: “Luiz, deixe isso para outro dia, sua mão não está boa”. Mas a vontade de fisgar os amarelões era tanta que eu nem estava pensando muito em como ia fazer para pescar, mas que eu iria eu iria! Convidei o Binho, mas ele disse que iria ficar pescando pacu na ceva, que estava melhor de pegar. Convidei então o Fernadinho, que também não quis ir por causa da ceva. Fiquei com raiva e decidi ir sozinho, e parti rio abaixo em direção às corredeiras da fazenda São Pedro.


Chegando ao local, parei o barco, esperei as ondas feitas pelo motor se acalmarem, e fiquei assuntando o movimento do lugar. Não demorou nada e percebi piaus saltando para fora da água, em meio às pedras, sinal que algum peixe estava atacando eles por baixo, e eu sabia bem que peixe era.
Com muito cuidado e dificuldade apoitei o barco, e tive muito cuidado com a mão machucada, pois qualquer movimento era doloroso, mas só de pensar nas fisgadas que eu ia dar até me esquecia do machucado. Isquei um piau e arremessei à maior distancia possível na direção das pedras submersas. Deixei a linha descer por uns 80 metros, e nada. Então recolhi e efetuei mais uns 10 arremessos, sem obter sucesso. Já estava desanimando, e decidi trocar de piau, pois o primeiro já estava morto de tantos arremessos. Dei mais uns dois arremessos, quando senti um tranco forte, que pegou a isca e saiu descendo o rio com força. Deixei carregar uns 15 metros de linha e dei uma fisgada meio desajeitada por causa da mão machucada, mas o dourado já estava fisgado, deu um belo salto, com um anzol 7/0 mariner cravado no canto da boca, sem chances de se libertar. Briguei um pouco e logo o amarelão estava de lado na beira do barco. Peguei no rabo dele e o coloquei para dentro, era um belo dourado. Fiz vários arremessos, e depois de algum tempo as puxadas começaram. Peguei mais três exemplares de bom tamanho, e uns quatro pequenos (fora da medida), que foram soltos imediatamente. 

Já estava me preparando para voltar ao acampamento, quando em um momento senti uma pegada diferente, um peixe maior, que não pulou depois de fisgado. Percebi que era um pintado, só não sabia o tamanho, pois naquelas águas fortes qualquer peixe parecia ser grande. Briguei um pouco com o peixe, mas ele não vinha de jeito nenhum, então como já estava na hora do almoço, prendi a vara no porta-vara do barco com o peixe ainda preso, e puxei a poita para ir em direção ao peixe rio a baixo. Quando o barco começou a rodar, senti que a linha tinha passado por traz de uma pedra, e por isso o peixe não subia. Com um pouco de esforço, funcionei o motor e rodeei a pedra, conseguindo liberar o a linha e continuando a briga. Agora na rodada ficou bem mais fácil para trazer o peixe, e quando ele subiu, vi que estava certo, se tratava de um pintado de uns 14 kg. Com muita dificuldade consegui pegar no rabo dele e reboca-lo para dentro do barco. Passada a adrenalina da briga, senti meus dedos machucados doerem, e quando olhei, minha mão estava toda ensangüentada. Rasguei minha camisa e fiz um novo curativo, meio desajeitado, mas foi o suficiente para estancar o sangue. Então percebi que era hora de parar, pois já tinha matado a minha vontade de pegar bons peixes, e ficar ali com cortes expostos na mão era burrice, poderia pegar uma infecção e demorar para sarar. Funcionei o motor e retornei ao acampamento. Ao chegar, o Fernadinho e o Binho vieram me mostrar uns pacus que tinham pegado na ceva, mas quando viram meu barco com a peixada levaram até um susto, e ficaram doidos. Foram almoçar bem rápido para ir para a corredeira pescar dourado também, e me convidaram para ir mostrar o lugar de apoitar, fiquei tentado a voltar com eles, mas eu estava impedido de voltar, pois os cortes em meus dedos estavam abertos e ficando doloridos demais. Almocei e deitei para descansar um pouco, em quanto isso meu pai já começou a desmontar o acampamento. Lá pelas 16 horas os dois retornaram com mais dois dourados, terminaram de desmontar tudo, e logo descemos o rio até o porto do sitio do seu Pedro. Colocamos tudo no carro, e depois de uma hora já estávamos em casa. Esta pescaria foi muito divertida e farta, mas também me deu uma lição. O corte no dedo indicador inflamou e me deu muito trabalho para sarar, inclusive tive que tomar uma antitetânica e uma benzetacil.


O Fernadinho é meu sobrinho e parceiro de pescaria, seguiu o caminho de guia de pesca, e hoje trabalha em uma pousada onde eu trabalhei a um tempo atrás. É um dos guias mais requisitados da região.

O Binho tem uma loja de carimbos aqui em Cáceres, e de vez em quando ainda pescamos juntos.

Meu pai, já aposentado, agora tem tempo para pescar sempre que quer ou quando minha mãe deixa. É muito teimoso, e não aceita de jeito nenhum que suas condições físicas já não são mais as de um garoto, e sempre que vai para o rio me deixa muito preocupado, pois passa horas no sol, e o seu médico o proibiu de pegar sol depois das 10 da manha. Sempre que tenho tempo eu o acompanho, para que não fique sozinho no rio, pois de um jeito ou de outro ele vai mesmo.

Eu abri uma pequena empresa aqui em Cáceres, em sociedade com um primo e compadre, que é gerente e administrador da pousada mais famosa da região, um companheiro como poucos, professor e irmão, que me ensinou muito do que sei, parceiro de inúmeras aventuras, que vem todos os sábados à minha casa me buscar para ir pescar no pantanal, fez do seu apartamento na pousada o meu também.

Eu adoro me lembrar das aventuras que já fiz e faço com amigos, são momentos que ficam nas lembranças para o resto da vida!

Pesca de mato



O Rio Paraguai, transbordando suas águas e alagando a mata
Como sou um aficionado pela pesca e pelo rio Paraguai, mesmo quando não estou pescando, sempre dou um jeito de passar na beira do rio! Ali fico por minutos olhando as águas, os pescadores que ficam no cais fazendo sua pesca de barranco, com suas varinhas de bambu a espreita de algum piau, barcos passando, ou lá longe “bugrinhos” tomando banho na praia da chácara do saudoso americano Daveron, que em uma época passada também se apaixonou por esta região, fixando residência na beira rio, de onde nunca mais saiu até seus últimos dias.

Neste ambiente sempre encontro amigos, que por lá passam pelo mesmo motivo que eu! Dia desses, em uma de minhas visitas ao cais da Praça Barão do Rio Branco (praça banhada por um braço do rio Paraguai, chamado de Bahia dos Malheiros, um dos belos pontos turísticos de Cáceres), encontrei um amigo de infância chamado Moacir, conhecido desde criança como “Acir”, e entre uma conversa e outra começamos a lembrar de pescarias que fizemos na infância.

O Acir vendo aqueles pescadores lutando para pegar um piau, me lembrou de uma pescaria que fizemos há muitos anos perto daquele local. “Ah como tinha peixe naquela época!”, disse ele para mim”. E naquele momento as lembranças voaram longe! Disse a ele: “como poderia esquecer meu amigo!”. 

E foi assim que aconteceu...

O pantanal, ao contrario do que muitos pensam, não é só formado por campos alagados. Possui matas ciliares muito densas, em algumas regiões parecidas com as matas amazônicas. Em meados de dezembro, a chuva, que teve seu ciclo iniciado em outubro, começam a cair com muita intensidade, e enche os afluentes, que por sua vez despejam suas vazantes no rio Paraguai. E o “Paraguaizão”, ao estar bem cheio, joga a água para fora do seu leito, causando o alagamento de áreas gigantescas, e as matas ciliares às margens do rio se transformam em um grande ambiente de reprodução e alimentação para os peixes pantaneiros. Dentro destas matas existem árvores frutíferas que soltam suas frutas maduras dentro da água, justamente nesse período da cheia, proporcionando aos peixes que adentram na mata uma enorme variedade de alimentos. 

Lembro-me que em uma cheia no inicio dos anos 90, eu e Acir marcamos uma pescaria para o fim de semana, pois mesmo sendo bem jovens já trabalhávamos e só podíamos pescar nos feriados e fins de semana. Tínhamos pouca experiência na modalidade de pesca que íamos fazer, mas muita disposição e coragem! Pelo fato do rio estar cheio, a pesca consistia em adentrar na mata inundada, com uma pequena canoa conhecida pelo nome de “desinteira família”, nome atribuído por ser uma embarcação muito pequena e fácil de afundar. Mas assim tinha que ser, aprendi esse tipo de pesca com meu pai.

Conhecida na região como pesca de mato, o pescador deve entrar na mata com a canoa e ir fazendo uma picada para marcar a localização, assim alcançando as fruteiras nativas onde os pacus comem. Os pacus percorrem grandes distancias mata a dentro, à procura de fruto caídos na água. É impressionante como fazem para comer! A fruta pode estar em um lugar bem raso, e mesmo que ele tenha que nadar de lado, alcança frutos a apenas 30 centímetros de profundidade. Quando se encontra uma boa fruteira soltando as frutas, marca-se o local, pois ali é uma ceva natural.

Existem duas maneiras de pescar no mato:

- Uma é usando uma vara de bambu bem curta, de no Maximo de 1,5 m, com uma linha grossa 0,100 mm, do mesmo tamanho da vara. O melhor anzol é o norueguês n° /5, por ser bem afiado e muito resistente. A vara curta vai facilitar a boleada da linha dentro do mato para não bater nos galhos. O sistema é iscar uma fruta (marmelada ou um coquinho de tucum) que são as que os pacus mais gostam, e bater na água como se ela tivesse caído do pé. O barulho de fruta caindo na água é musica para os ouvidos destes peixes, eles vem para comer a fruta que caiu, e o pescador pode se preparar porque o tranco é forte e a emoção é grande! Lembrando que o pescador deve manter muito silencio, porque a água na mata é rasa e os peixes ficam ariscos.

- A outra maneira é amarrando linhas dentro da picada em galhos flexíveis, de 10 em 10 metros, com uma linha resistente e deixando a isca na flor da água, pois na natureza 90% dos frutos bóiam, e isso faz parecer que a fruta está flutuando. O pacu pega e, quando afunda, o galho faz o trabalho de fisgar. Quando é pego desta maneira, o peixe faz muito barulho, pois a linha é curta e ele briga na flor da água.

A pesca de mato é muito usada por pescadores profissionais, por ser de baixo custo. Requer muito conhecimento da região, é sofrida pelo fato do pescador estar no mato e sofrer picadas de formigas e vespas a todo o momento, mas é uma das mais eficientes na pesca do pacu. Se a mata tem frutas com certeza tem peixe!

Meu pai havia feito uma excelente pescaria a poucos dias, e tinha me falado que naquela mata tinha muita fruta e estava cheio de pacu. Eu já conhecia a região, e então na sexta-feira convidei o Acir para ir pescar comigo, e ele de prontamente aceitou. Combinamos que sairíamos sábado bem cedinho. Quando eu convidava aquele cara para pescar, via seus olhos brilharem de alegria. Como ele gostava!

Na sexta à noite preparamos tudo, fizemos uma matula, arroz com galinha e ovo frito, pensa num trem bão! Compramos uns refrigerantes, ajeitamos as tralhas e fomos dormir para sair no outro dia cedo. Antes do amanhecer já escutei uns gritos lá na rua em frente à minha casa, era o bugre louco para sairmos logo! Tirei a bicicleta do quintal, amarramos as tralhas nas bikes, e partimos em direção ao local onde ficavam as canoas. Do local onde saímos, até o ponto de pesca, dava mais ou menos uns 5 km de rio, isso equivale a mais ou menos 40 minutos de remo. No percurso já íamos traçando os planos para pegar os peixes. Chegando ao local percebi que já tinha um pescador naquela mata, e por isso não daria para pescar ali. Fiquei um pouco decepcionado, mas combinei com o parceiro que iríamos procurar outro ponto, e assim partimos para outro local. Entrando em um igarapé (na região, chamados de “baías”), percebi que tinha um grupo de macacos bugios fazendo uma grande algazarra, e vi que estavam derrubando muitos frutos na água, foi então que comecei a me animar e disse pro parceiro: “se tem macaco derrubando fruta, tem peixe em baixo comendo!”.


Macaco Bugio

Procurei um lugar para entrar e averiguar que frutas eram aquelas. Para conseguir entrar na mata foi um pouco difícil, pois havia muitos cipós entrelaçados que dificultaram bem o trabalho, mas nada que um bom “Tramontina” não desse conta! Ao me aproximar das árvores, percebi que os macacos me viram, e por algum momento a bagunça parou. Dei uma olhada no chão vi que se tratava de uma fruta chamada de cajá (encontrada na maioria dos estados brasileiros), se parece muito com a Seriguela, mas tem uma cor forte puxada para o amarelo, e por sinal é muito saborosa, adocicada e ácida, proporciona um suco muito saboroso refrescante. 


Pé de Cajá - os pacus adoram

Pedi para o companheiro fazer silêncio, para que eu pudesse ver se tinha peixe comendo ali. Peguei a vara e dei umas cinco batidas na água, imitando a fruta cair. O que eu tinha para iscar era o coquinho “tucum”, e para minha felicidade notei ondas por todos os lados dentro daquela mata, e fiquei certo que eram pacus querendo achar a fruta que tinha feito o barulho. Na pescaria de mato é possível ver, em alguns momentos, o peixe abrindo água com a barbatana dorsal. Isso acontece em pontos onde a água está bem rasa, e o pacu vem por esses lugares para comer. Mais que depressa preparei o facão e comecei a abrir uma picada. A mata devia ter uns 400 metros de água límpida e corrente, e isso me deu um bom espaço para colocar as linhas de armadilha. Deixei o Acir em um pé de cajá para ir colhendo os frutos para usarmos como isca, e fui adentrando e amarrando as linhas. Já com umas 25 linhas amarradas, decidi que era o suficiente e retornei à fruteira para pegar o companheiro.

Ele tinha uma sacola bem cheia e já dava para pescar um bom tempo. Saímos iscando os anzóis, e quando já estava no meio da picada escutei um estrondo na água. Por um momento ficamos quietos para ver do que se tratava, e aí o pau quebrou de verdade! Nessa hora foi só alegria, o coração parecia que ia explodir, a euforia tomou conta dos dois, e logo viramos a canoa e remamos com força para chegar no local para retirar o nosso primeiro peixe. Quando um pacu está preso na armadilha dentro do mato, é preciso ser muito rápido para retirá-lo da água, pois a disputa com piranhas e jacarés é grande, e se a gente der bobeira eles tomam o pacu da armadilha. 

Chegando perto de onde tínhamos ouvido o barulho fiquei apreensivo, pois tudo já estava calmo, e me preocupei achando que um jacaré tivesse tomado nosso peixe. Mas olhando bem lá na frente percebi um movimento na água, apurei a vista e vi uma grande mancha amarela arredondada nadando de lado, bem suave, pois a linha era curta e fazia com que o peixe praticamente flutuasse. Arreganhei um belo sorriso e falei para o companheiro: “este já esta no saco!”. Chegando perto vi que se tratava de um belo pacu, já muito cansado de tanto brigar, entregue ao seu destino. Com paciência peguei no rabo e o coloquei na canoa. Era um belo peixe, tinha bem os seus 5 kg. Olhei para o Acir e suspirei: “Cara, hoje vai ser um dia daqueles inesquecíveis”, e assim foi.

Durante o dia todo foi uma festa, era peixe estourando dentro da água a todo o momento, mal tivemos tempo para saborear a matula de galinha com arroz e ovo frito. Foi uma correria e tanto, e o trem foi tão bom que nem vimos o tempo passar. Soltamos vários exemplares que não deram medida, e seguramos só os grandes. No final da tarde avisei o parceiro que teríamos que tirar as linhas rapidamente, pois se escurecesse ficaria quase impossível sair do mato sem uma lanterna. Fomos até o final da picada, para de lá voltarmos tirando as linhas. Já era bem tarde e o sol já havia sumido, e dentro da mata já estava bem turvo. Quando já vínhamos tirando as armadilhas, ouvi um estrondo muito forte e grave, bem no começo das linhas, e disse pro amigo: “ou é um baita jacaré tomando um pacu, ou é o maior que bateu até agora”. Já meio sem rumo pela falta de claridade, chegamos ao local. Era a primeira linha da picada, com um pacu de assustar! Por já estar escuro, e estarmos sem iluminação, só percebi que era grande, mas não deu para ver direito o tamanho. Coloquei para dentro da canoa, tirei a linha e aprecei no remo para sairmos logo. Quando vi que já estávamos no rio, fiquei tranqüilo, pois sabia que não havia mais como nos perder. Remamos de volta até o porto, e ao descer no seco e começar a ajeitar as tralhas foi que percebi que o ultimo pacu era enorme, pesou 8 kg e mediu mais de 60 cm, o que para um pacu é um exemplar bem grande. Além do “bitelo”, pegamos mais 13 belos exemplares dentro da medida.


Fim de tarde no Rio Paraguai

Então, com tudo pronto, tive que ir até um orelhão ligar para meu pai vir buscar os peixes no seu “Corcel I”, pois com tanto peixe era impossível levar de bicicleta. 

Esta sem duvida foi uma bela pescaria, que jamais vou esquecer!

Por muitas e muitas vezes pesquei no mato, hoje não o faço mais por julgar não ser necessário, pois há muito não vivo da pesca profissional.